Metodologia Histórica Moderna vs. Metodologia dos Hadiths (parte 4 de 5): A Classificação de Hadiths I

 

As pessoas envolvidas na transmissão de um hadith constituem seu isnad.  O isnad nos informa sobre a fonte do hadith e essa informação posteriormente se torna uma parte essencial do hadith (Azami 31). Relata-se que Abdullah b. Al-Mubarak, um dos professors de al-Bukhari, disse: “O isnad é parte da religião, porque se não fosse pelo isnad, qualquer um teria dito o que quisesse” (Hasan 11) [1] .  Existe alguma indicação de que o isnad foi usado antes da primeira tribulação, embora só tenha sido plenamente desenvolvido no fim do primeiro século da Hégira (Azami 33). (Entretanto, John Burton em seu An Introduction to the Hadith (Uma Introdução aos Hadiths, em tradução livre) diz que o isnad ainda não existia no primeiro século). A outra parte do hadith que contém o dito ou ação específicos do profeta, que a misericórdia e bênçãos de Deus estejam sobre ele, é seu matn ou texto.
 
Na classificação de hadiths existem várias categorias amplas, das quais somente sete serão brevemente discutidas aqui.  As sete categorias são classificações de acordo com: 1) a referência a uma autoridade particular; 2) os elos no isnad; 3) o número de relatores envolvidos em cada etapa do isnad; 4) a técnica usada no relato do hadith; 5) a natureza do isnad e matn; 6) um defeito oculto encontrado no isnad ou matn do hadith; e 7) a confiabilidade e memória dos relatores (Hasan 14-16).
 
A primeira categoria, a classificação de acordo com a referência a uma autoridade particular, pertence a se ela vai até o profeta, um Companheiro ou um Sucessor.  Uma narração marfu ou “elevada” é a que vai até o profeta e é considerada como o melhor nível (Burton 112). Uma narração mawquf ou “interrompida” é a que vai até um Companheiro, enquanto que uma narração maqtu ou “dividida” vai até um Sucessor.  Essa classificação é significativa porque diferencia entre os ditos e ações do profeta e as de um Companheiro ou Sucessor.
 
A segunda categoria, classificação de acordo com os elos no isnad, faz várias distinções.  O hadith musnad ou “apoiado” é o melhor do grupo já que não contém interrupção na cadeia de autoridades que relatam o hadith até o profeta (Burton 111). O hadith mursal ou “desvinculado” é o que contém uma lacuna de uma geração (de acordo tanto com Azami quanto com Hasan, é um hadith relatado por um Sucessor que pula no isnad o Companheiro de quem ele aprendeu).  O hadith munqati ou “quebrado” é aquele em que falta um elo mais próximo ao tradicionalista que o relata (ou seja, antes do Sucessor).  Isso se aplica mesmo que não pareça existir interrupção na cadeia, mas seja sabido que um dos relatores não poderia ter ouvido o hadith da autoridade imediata dada no isnad, mesmo que sejam contemporâneos.  O termo munqati também é usado por alguns sábios para se referir a um hadith no qual um relator não informa sua autoridade e ao invés disso diz “um homem narrou para mim” (Hasan 22). Um hadith é mudal ou “confuso” se mais de um relator consecutivo estiver faltando no isnad.  Se o isnad é completamente ignorado e o relator cita diretamente do profeta, o hadith é considerado muallaq ou “suspenso” (Hasan 22).
 
Dentro da terceira categoria os hadiths são classificados de acordo com o número de relatores em cada etapa do isnad, ou seja, em cada geração de relatores.  As duas principais classificações são mutawatir (“consecutivo”) e ahad (“único”), embora o ahad seja ainda dividido em muitas subdivisões, entre elas gharib (“escasso” ou “estranho”), ‘aziz (“raro” ou “forte”) e mash’hur (“famoso”). Um hadith mutawatir é aquele que é relatado por um grande número de pessoas fazendo com que um acordo sobre uma mentira não seja razoavelmente possível e no qual a possibilidade de coincidência é desprezível.  O número mínimo exigido de relatores difere entre os sábios de hadith e varia de quatro a várias centenas (Azami 43). O hadith pode ser mutawatir no significado ou palavras, sendo o primeiro caso o tipo mais comum.  Al-Ghazali estipulou que o hadith deve ser mutawatir nos estágios inicial, intermediário e final de seu isnad (Hasan 30). Um hadith ahad é aquele cujo número de relatores não chega perto do exigido de um hadith mutawatir.  Um hadith é classificado como gharib se em qualquer estágio (ou todos os estágios) no isnad existe somente uma pessoa relatando-o. Um hadith é classificado como aziz se em cada estágio no isnad existem pelo menos duas pessoas relatando-o. Se pelo menos três pessoas relatarem um hadith em cada estágio de seu isnad, então ele é classificado como mash’hur, embora o termo também seja aplicado aos hadiths que iniciam como gharib ou aziz, mas terminam com um grande número de relatores (Hasan 32).
 
Na quarta categoria os hadiths são classificados de acordo com a forma na qual são relatados.  Como mencionado anteriormente, existe um termo especial correspondente para denotar um modo particular de aprendizado ou transmissão quando um aluno ou sábio aprendem um hadith.  Os termos “haddathana,” “akhbarana” e “sami’tu” indicam que o relator pessoalmente ouviu o hadith de seu próprio sheikh.  “An” e “qaala” são mais vagos e podem significar ouvir do sheikh em pessoa ou através de alguém.  Na verdade, “an” é muito inferior e pode significar aprender o hadith através de qualquer um dos vários modos de transmissão (Azami 22). Um hadith pode ser rotulado como fraco devido à incerteza causada pelo uso dos dois últimos termos, que se traduzem respectivamente como “sobre a autoridade de” e “ele disse” (Hasan 33). Quem pratica “tadlis” ou ocultação, relata de seu sheikh o que não ouviu dele ou relata de um contemporâneo com o qual nunca se encontrou.  Isso viola o princípio de que um hadith deve ser ouvido em primeira mão para ser transmitido (Burton 112). Outro tipo de tadlis, que é considerado o pior entre eles, é quando um sábio confiável relata de uma autoridade fraca que por sua vez está relatando de um sábio confiável.  A pessoa que está relatando esse isnad pode mostrar que ele ouviu de seu sheikh, mas então omite a autoridade fraca e simplesmente usa o termo “an” para vincular seu sheikh com o próximo confiável no isnad (Hasan 34).
 
Se ao longo do isnad todos os relatores (incluindo o profeta) usam o mesmo modo de transmissão, repetem uma afirmação ou observação adicional ou agem de uma forma particular enquanto narram o hadith, então ele é chamado musalsal (“uniformemente vinculado”).  Esse tipo de conhecimento é útil para descontar a possibilidade de tadlis em um hadith particular (Hasan 35).
 
Footnotes:
[1] Hasan, Suhaib. An Introduction to the Science of hadeeth (Uma Introdução à Ciência dos Hadiths, em tradução livre). Riyadh: Darussalam, 1996.


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