A História de Abraão (parte 6 de 7): O Maior dos Sacrifícios

 

Abraão Sacrifica Seu Filho
 
Havia quase dez anos que Abraão tinha deixado sua esposa e bebê em Meca aos cuidados de Deus.  Depois de uma jornada de dois meses ele ficou surpreso em encontrar Meca muito diferente do que era quando partiu.  A alegria da reunião logo foi interrompida por uma visão que seria o teste supremo de sua fé.  Deus comandou através de um sonho que Abraão sacrificasse seu filho, o filho que ele tinha tido depois de anos de orações e tinha acabado de encontrar depois de uma década de separação.
 
Sabemos do Alcorão que a criança a ser sacrificada era Ismael, já que Deus, ao dar as boas novas do nascimento de Isaque a Abraão e Sara, também deu as boas novas de um neto, Jacó (Israel):
 
“...alvissaramo-la com o nascimento de Isaac e, depois deste, com o de Jacó.” (Alcorão 11:71)
 
Da mesma forma, no verso bíblico Gênesis 17:19, foi prometido a Abraão:
 
“Sara, tua mulher, te dará à luz um filho, e lhe chamarás Isaque; com ele estabelecerei o meu pacto como pacto perpétuo para a sua descendência depois dele.”
 
Como Deus prometeu dar a Sara um filho de Abraão e netos daquela criança, não era lógica e praticamente possível para Deus ordenar que Abraão sacrificasse Isaque, uma vez que Deus não quebra Sua promessa e nem é o “autor de confusão.”
 
Embora o nome de Isaque seja explicitamente mencionado como aquele que seria sacrificado em Gênesis 22:2, aprendemos de outros contextos bíblicos que essa é uma interpolação clara, e aquele que seria sacrificado era Ismael.
 
“Teu Único Filho”
 
Nos versos de Gênesis 22, Deus ordena Abraão sacrificar seu único filho.  Todos os estudiosos do Islã, Judaísmo e Cristianismo concordam que Ismael nasceu antes de Isaque.  Não faria sentido chamar Isaque de único filho de Abraão.
 
É verdade que os estudiosos judaico-cristãos argumentam com frequência que como Ismael nasceu de uma concubina, não era filho legítimo.  Entretanto, já mencionamos antes que de acordo com o próprio Judaísmo era uma ocorrência comum, válida e aceitável esposas estéreis darem concubinas a seus maridos para gerarem descendência, e a criança produzida pela concubina era reivindicada pela esposa do pai[1], desfrutando todos os direitos como se fosse filho da própria esposa, incluindo herança.  Além disso, recebiam o dobro da parte das outras crianças, mesmo que fossem “odiadas” [2] .
 
Em acréscimo a tudo isso, é inferido na Bíblia que a própria Sara considerava um filho nascido de Agar como seu herdeiro de direito.  Sabendo que havia sido prometido a Abraão que sua semente encheria a terra entre o Nilo e o Eufrates (Gênesis 15:18) de seu próprio corpo (Gênesis 15:4), ela ofereceu Agar a Abraão para que ela fosse o meio do cumprimento dessa profecia.  Ela disse:
 
“Eis que o Senhor me tem impedido de ter filhos; toma, pois, a minha serva; porventura terei filhos por meio dela.” (Gênesis 16:2)
 
Também é semelhante à Léa e Raquel, as esposas de Jacó, filho de Isaque, darem suas servas a Jacó para gerarem descendência (Gênesis 30:3, 6-7, 9-13).  Seus filhos foram Dan, Neftali, Gad e Asher, que eram dos doze filhos de Jacó, os pais das doze tribos dos israelitas e, consequentemente, herdeiros[3] válidos.
 
 Disso entendemos que Sara acreditava que uma criança nascida de Agar seria um cumprimento da profecia dada a Abraão, e seria como se tivesse nascido dela própria.  Assim, de acordo apenas com esse fato, Ismael não é ilegítimo, mas um herdeiro de direito.
 
O próprio Deus considera Ismael um herdeiro válido porque, em várias passagens, a Bíblia menciona que Ismael é uma “semente” de Abraão.  Por exemplo, em Gênesis 21:13:
 
“Mas também do filho desta serva farei uma nação, porquanto ele é da tua linhagem.”
 
Existem muitas outras razões que provam que Ismael e não Isaque deveria ser sacrificado e, se Deus quiser, um artigo separado será dedicado a esse assunto.
 
Para continuar com o relato, Abraão consultou seu filho para ver se ele compreendia o que lhe foi ordenado por Deus:
 
“E lhe anunciamos o nascimento de uma criança (que seria) dócil. E quando chegou à adolescência, seu pai lhe disse: Ó filho meu, sonhei que te oferecia em sacrifício; que opinas? Respondeu-lhe: Ó meu pai, faze o que te foi ordenado! Encontrar-me-ás, se Deus quiser, entre os perseverantes!” (Alcorão 37:101-102)
 
De fato, se o pai diz a uma pessoa que ela deverá ser morta por causa de um sonho, isso não será recebido da melhor maneira.  Pode-se duvidar do sonho e também da sanidade da pessoa, mas Ismael conhecia a posição de seu pai.  O filho virtuoso de um pai virtuoso estava determinado a se submeter a Deus.  Abraão levou seu filho ao lugar onde deveria ser sacrificado e o deitou com o rosto para baixo.  Por essa razão, Deus os descreveu com as mais belas palavras, pintando uma imagem da essência da submissão; uma que leva lágrimas aos olhos:
 
“E quando ambos aceitaram o desígnio (de Deus) e (Abraão) preparava (seu filho) para o sacrifício.” (Alcorão 37:103)
 
Quando a faca de Abraão estava descendo, uma voz o interrompeu:
 
“Então o chamamos: Ó Abraão, Já realizaste a visão! Em verdade, assim recompensamos os benfeitores. Certamente que esta foi a verdadeira prova.” (Alcorão 37:104-106)
 
De fato, foi o maior de todos os testes, sacrificar seu único filho, nascido depois de ter alcançado uma idade avançada e anos de espera por descendência.  Aqui Abraão mostrou sua disposição de sacrificar tudo que tinha por Deus, e por essa razão, foi designado um líder de toda a humanidade, aquele a quem Deus abençoou com uma descendência de profetas.
 
“E quando o seu Senhor pôs à prova Abraão, com certos mandamentos, que ele observou, disse-lhe: Designar-te-ei Imam dos homens. (Abraão) perguntou: E também o serão os meus descendentes?” (Alcorão 2:124)
 
Ismael foi resgatado com um carneiro:
 
“...E o resgatamos com outro sacrifício importante.” (Alcorão 37:107)
 
É esse epítome de submissão e confiança em Deus que centenas de milhões de muçulmanos reencenam todo ano durante os dias do Hajj, um dia chamado Yawm-un-Nahr – O Dia do Sacrifício, ou Eid-ul-Adhaa – ou a Celebração do Sacrifício.
 
Abraão retornou à Palestina e ao fazê-lo, foi visitado pelos anjos que deram a ele e à Sara as boas novas de um filho, Isaque:
 
“...viemos alvissarar-te com a vinda de um filho, que será sábio.” (Alcorão 15:53)
 
Nesse momento também lhe é dito sobre a destruição do povo de Lot.
 
 
Footnotes:
[1] Pilegesh. Emil G. Hirsch e Schulim Ochser. The Jewish Encyclopedia (Enciclopédia Judaica). (http://www.jewishencyclopedia.com/view.jsp?artid=313&letter=P).
[2] Deuteronômio 21:15-17. Ver também: Primogeniture (Primogenitura). Emil G. Hirsch and I. M. Casanowicz. The Jewish Encyclopedia (Enciclopédia Judaica). (http://www.jewishencyclopedia.com/view.jsp?artid=527&letter=P).
[3] Jacob. Emil G. Hirsch, M. Seligsohn, Solomon Schechter e Julius H. Greenstone. The Jewish Encyclopedia (Enciclopédia Judaica). (http://www.jewishencyclopedia.com/view.jsp?artid=19&letter=J).

 



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