A História de Abraão (parte 2 de 7): Chamado para Seu Povo

 

Abraão e Seu Pai
 
Como aqueles ao seu redor, o pai de Abraão, Azar (Terá ou Terakh na Bíblia), era um idólatra.  A tradição[1] bíblica fala dele como sendo um escultor de ídolos[2] e por essa razão o primeiro chamado de Abraão foi direcionado para ele.  Dirigiu-se a ele com lógica clara e bom senso, do ponto de vista de um homem jovem e sábio.
 
“E menciona, no Livro, (a história de) Abraão; ele foi um homem de verdade, e um profeta. Ele disse ao seu pai: Ó meu pai, por que adoras quem não ouve, nem vê, ou que em nada pode valer-te? Ó meu pai, tenho recebido algo da ciência, que tu não recebeste. Segue-me, pois, que eu te conduzirei pela senda reta!” (Alcorão 19:41-43)
 
A resposta de seu pai foi rejeição, uma resposta óbvia vinda de qualquer pessoa desafiada por outra muito mais jovem que ela, um desafio contra anos de tradição e normas.
 
“Disse-lhe (o pai): Ó Abraão, porventura detestas as minhas divindades? Se não desistires, apedrejar-te-ei. Afasta-te de mim!” (Alcorão 19:46)
 
Abraão e Seu Povo
 
Depois de incessantes tentativas de chamar seu pai para deixar de adorar falsos ídolos, Abraão se voltou para seu povo buscando adverti-lo, dirigindo-se a eles com a mesma lógica simples.
 
“E recita-lhes (ó Mensageiro) a história de Abraão. Quando perguntou ao seu pai e ao seu povo: O que adorais? Responderam-lhe: Adoramos os ídolos, aos quais estamos consagrados. Tornou a perguntar: Acaso vos ouvem quando os invocais? Ou, por outra, podem beneficiar-vos ou prejudicar-vos? Responderam-lhe: Não; porém, assim encontramos a fazer os nossos pais. Disse-lhes: Porém, reparais, acaso, no que adorais, vós e vossos antepassados? São inimigos para mim, coisa que não acontece com o Senhor do Universo, Que me criou e me ilumina. Que me dá de comer e beber. Que, se eu adoecer, me curará. Que me dará a morte e então me ressuscitará.” (Alcorão 26:69-81)
 
Ao prosseguir com seu chamado de que a única divindade merecedora de adoração era Deus, o Todo-Poderoso, apresentou outro exemplo para que seu povo ponderasse.  A tradição judaico-cristã conta uma história semelhante, mas a retrata no contexto do próprio Abraão se dando conta da existência de Deus através da adoração desses seres[3], e não de usá-la como exemplo para seu povo.  No Alcorão não é dito que nenhum dos profetas associou outros a Deus, mesmo quando não estavam informados do caminho correto antes de iniciarem sua missão profética.  O Alcorão fala de Abraão:
 
“E quando viu despontar o sol, exclamou: Eis aqui meu Senhor! Este é maior! Porém, quando este se pôs, disse: Ó povo meu, não faço parte da vossa idolatria!” (Alcorão 6:76)
 
Abraão apresentou-lhes o exemplo das estrelas, uma criação incompreensível para os humanos da época, vista como algo maior que a humanidade, e as quais muitas vezes se atribuíam poderes.  Mas quando as estrelas se puseram Abraão viu sua inabilidade de aparecerem quando desejassem, e só poderem ser vistas à noite.
 
Então apresentou o exemplo de algo maior, um corpo celeste mais belo, de maiores dimensões e que podia aparecer durante o dia também!
 
“Quando viu desapontar a lua, disse: Eis aqui meu Senhor! Porém, quando esta desapareceu, disse: Se meu Senhor não me iluminar, contar-me-ei entre os extraviados.” (Alcorão 6:77)
 
Então, como exemplo culminante, apresentou um exemplo de algo ainda maior, uma das criações mais poderosas, sem a qual a própria vida seria uma impossibilidade.
 
“E quando viu despontar o sol, exclamou: Eis aqui meu Senhor! Este é maior! Porém, quando este se pôs, disse: Ó povo meu, não faço parte da vossa idolatria!” (Alcorão 6:78)
 
Abraão lhes provou que o Senhor dos mundos não seria encontrado nas criações que seus ídolos representavam, mas que Ele era a entidade que os havia criado e a tudo que pudessem ver e perceber; que o Senhor não necessariamente precisava ser visto para ser adorado.  Ele é um Senhor que não está restrito às limitações que as criações encontradas nesse mundo estão.  Sua mensagem era simples:
 
“E recorda-te de Abraão, quando disse ao seu povo: Adorai a Deus e temei-O! isso será melhor para vós, se o compreendeis! Qual, somente adorais ídolos, em vez de Deus, e inventai calúnias! Em verdade, os que adorais, em vez de Deus, não podem proporcionar-vos sustento. Procurai, pois, o sustento junto a Deus, adorai-O e agradecei-Lhe, porque a Ele retornareis.” (Alcorão 29:16-17)
 
Ele questionou abertamente sua aderência a meras tradições de seus antepassados:
 
“Ele disse: Verdadeiramente, vós e vossos antepassados estão em erro evidente.”
 
O caminho de Abraão seria cheio de dor, dificuldades, testes, oposições e dores de cabeça.  Seu pai e seu povo rejeitaram sua mensagem.  Seu chamado não os afetou; não queriam argumentar.  Ao invés disso, ele foi desafiado e ironizado:
 
“Disseram: Traga-nos a verdade, ou és um gracejador?”
 
Nesse estágio de sua vida, Abraão, um homem jovem com um futuro promissor, se opôs à sua própria família e nação para propagar uma mensagem de verdadeiro monoteísmo, crença no Único e Verdadeiro Deus, e rejeição a todas as falsas deidades, fossem estrelas ou outras criações celestiais ou terrenas, ou retratações de deuses na forma de ídolos.  Foi rejeitado, banido e punido por sua crença, mas se manteve firme contra todo o mal, pronto para enfrentar ainda mais no futuro.
 
“E quando o seu Senhor pôs à prova Abraão, com certos mandamentos,...” (Alcorão 2:124)
 
 
Footnotes:
[1] Gên r. xxxviii, Tanna debe Eliyahu. Ii. 25.
[2] Abraham (Abraão). Charles J. Mendelsohn, Kaufmann Kohler, Richard Gottheil, Crawford Howell Toy.  The Jewish Encyclopedia (Enciclopédia Judaica).  (http://www.jewishencyclopedia.com/view.jsp?artid=360&letter=A#881)
[3] The Talmud: Selections (Talmude: Seleções, em tradução livre), H. Polano. (http://www.sacred-texts.com/jud/pol/index.htm).


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